Simples atividade para promover a escuta
O uso excessivo de telas pode promover uma dificuldade de atenção sustentada (incapacidade de manter o foco em uma tarefa ou estímulo por um tempo prolongado), um fenômeno amplamente discutido na interface entre neurociência e cibercultura (CARR, 2010; WOLF, 2018).
Ambientes de estímulos múltiplos e rápidos favorece uma atenção difusa que contrasta muito com a concentração profunda necessária nos processos de aprendizagem significativa.
No laboratório, observei, porém, que essa dinâmica se manifestava não como desinteresse, mas como uma pulsão por respostas imediatas e uma dificuldade de escuta ativa,
comportamentos que Santos (2019) identifica como desafios formativos centrais na cibercultura, exigindo intervenções pedagógicas específicas.
Portanto, ao contrário do que se pode imaginar, não faltava interesse das/dos estudantes nos assuntos abordados, mas faltava a capacidade de ouvir, se expressar sem interpelar as/os
colegas da sala. Por isso, era comum que falassem a maioria ao mesmo tempo e algumas crianças chegam a tapar os ouvidos, relatando também dores de cabeça.
Buscando, então, uma solução para preservar a fala e a escuta na conversa, comecei a selecionar vídeos que pudessem pelo menos ajudar a promover um silêncio inicial para que, em
seguida, pudéssemos conversar. Porém, muitas vezes esses vídeos, por mais tranquilos que fossem, acabavam estimulando ainda mais as crianças.
Foi, então, que encontrei vídeos disponíveis no YouTube em 4k que somente mostram imagens do fundo do mar, sem narração e com uma música de fundo que cumpre bem esse papel.
O resultado surpreendeu a todas nós, professoras, e algumas passaram, inclusive, a usar esses vídeos em sala. A proposta era que ao sentir vontade de falar, o/a estudante deveria observar se tinha
mais alguém falando e olhar para o fundo do mar para aguardar a sua vez.
A proposta foi tão eficiente que o vídeo continuava sendo projetado mesmo durante o uso dos computadores, o que
promoveu mais tranquilidade e serenidade para realização das atividades.
Essa inesperada âncora visual e sonora nos mostrou que a escuta ativa exige serenidade.
Ao projetar o fundo do mar, resgatamos simbolicamente a nossa conexão ancestral com o oceano, um ambiente que, em sua lentidão e imensidão, nos ensina sobre humildade e o aguardo.
O mar, elemento que tudo recebe e devolve em seu próprio tempo, tornou-se o coração da nossa cosmotécnica do cuidado.
Ele não apenas mediou a coletividade, mas também criou as
condições para que as crianças pudessem encontrar seu próprio ritmo e formular soluções criativas, revelando como o silêncio também pode se tornar o solo fértil para a ação consciente.